Quanto mais alemães conheço, mais me arrepio com o pouco interesse que têm pelo próprio país, uma consequência da ferida aberta pelo passado recente. Muitos alemães acham que devem viver numa espécie de limbo. É possível que não haja nenhum outro país, pelo menos no mundo ocidental, que tenha que lidar consigo próprio desta forma, sabendo que não pode falar de si com orgulho e cuja forma de divulgar a própria cultura tem que ser diferente da de toda a gente. Ou seja, não é mostrando o legado histórico que os alemães se divulgam, é simplesmente responsabilizando-se por ele, pelo bom e pelo mau, e vivendo como se nascer com esta nacionalidade não fosse mais que uma acção biológica que não deve comportar grandes entusiasmos, que não o de que há mais mundo para ver e bem mais interessante do que o próprio.
Isto leva-me a fazer a seguinte reflexão: como é o nosso orgulho, nosso dos portugueses, como povo? Falar em povos como entidades homogéneas já não faz sentido, mas as imagens pré-feitas continuam a existir, especialmente aquelas sobre os povos como entidades que nos incutem desde sempre. Nós somos X, os alemães são Y, os chineses são Z. E por isso pergunto, que imagem nos incutem e quão semelhantes ou diferentes serão os portugueses em relação a ela? Fará sentido ainda fazer este tipo de reflexão? Quantas pessoas corresponderiam à imagem que temos de nós próprios como entidade? Não deveríamos, nos nossos dias, fazer outro tipo de perguntas? E qual seria mais apropriada? 'Como são os europeus?' 'Como são os ocidentais?' 'Como são os minhotos?' 'Como são os lisboetas?' 'Como são as pessoas do meu bairro?' Que gaveta devemos ter em conta para examinar isso do 'ser português'? O que é 'ser português'? Para que quero eu saber o que é ser português? Sou português? O que é que faz uma nacionalidade? O que é que faz um povo? O que é uma cultura?