26.11.09
22.11.09
19.11.09
18.11.09
17.11.09
A minha área de estudo é a língua. Desde há muitos anos que me dedico ao estudo das línguas estrangeiras, o que implica um estudo da própria língua e da língua como sistema, independentemente de qual seja.
Estudar línguas implica lidar com muitos livros, muita palavra escrita, muitos dicionários, gramáticas, enciclopédias. Se há coisa que tenho aprendido com todos estes livros é que não há nada mais poderoso e mais determinante das interpretações que fazemos do mundo do que a língua. É através dela que atribuímos significado ao mundo que nos rodeia. O mundo é isso, uma interpretação, um significado, que representamos através de sinais. Palavras. Termos.
Hoje lembrei-me, durante uma discussão num seminário, dos meus alunos de 7 e 8 anos a quem, no ano passado, pedi que desenhassem a família como eles a entendiam. Surgiram de imediato várias perguntas de vários lados: a minha mãe morreu, como faço? o meu pai morreu, como faço? eu vivo com o meu tio, como faço? o meu avô já não existe, ainda o posso desenhar?
Estas perguntas são fáceis de responder: desenhem como a entendam, como ela é para vós, como faz sentido. Esqueci-me, porém, do poder da língua, das palavras, dos termos. Esqueci-me que a língua é um sistema de diferenças. O termo família não existe num vácuo. Família implica os termos pai, mãe e filho. E o termo pai existe em relação ao termo mãe. E o termo filho não existe sem os termos pai e mãe. Os termos não existem sozinhos. Aí reside o poder da língua, em moldar-nos o mundo duma forma que não é necessariamente a que conhecemos e que leva a que, sendo diferentes daquilo que a língua representa, nos sentimos sempre como uma não-parte dos significados. Se eu não tenho pai, falta-me algo. Se eu não tenho mãe, falta-me algo. Sou diferente, não tenho uma família normal.
É o poder da língua a tiranizar a nossa vida todos os dias.
Assisti há pouco ao Prós e Contras de ontem. Ouvi dezenas de vezes os termos casamento, família, adopção, criança, pai e mãe, e apercebi-me de como a tirania da língua é aproveitada pelos seres humanos, que atribuem livremente a cada um daqueles termos um determinado conjunto de significados, conforme o mundo lhes tenha sido apresentado e conforme o queiram moldar. Felizmente apercebi-me de que, sabendo da tirania da língua, sinto estar do lado que menos tiraniza com ela, que menos a usa para manter sistemas artificiais de diferenças, sustentados por anos e anos de discursos, de textos, de nada mais que isso.
Senti, sobretudo, uma sensação incrível de que tenho o dever de, como especialista já de alguma forma na área, contribuir naquilo que possa para uma transformação da língua como meio que justifica tiranias num meio de entendimento e de aproximação de pessoas, mais do que como questionamento, divisão, segregação e atribuição de significados ao mundo, à sociedade, aos comportamentos e às crenças, que não servem a felicidade humana.
Nenhum dos meus alunos de 7 e 8 anos deveria sentir que a sua família é incompleta. Deveriam saber que cada um tem a sua, e que, como cada vida, cada família acontece de forma diferente. E que com pai, mãe, tio, tia, avô e avó, com todos ou só com alguns, sem uns mas com outros, desde que recebam afectos, têm uma família, e que são esses afectos que a fazem existir, independentemente dos termos que a língua utiliza para a descrever.
Estudar línguas implica lidar com muitos livros, muita palavra escrita, muitos dicionários, gramáticas, enciclopédias. Se há coisa que tenho aprendido com todos estes livros é que não há nada mais poderoso e mais determinante das interpretações que fazemos do mundo do que a língua. É através dela que atribuímos significado ao mundo que nos rodeia. O mundo é isso, uma interpretação, um significado, que representamos através de sinais. Palavras. Termos.
Hoje lembrei-me, durante uma discussão num seminário, dos meus alunos de 7 e 8 anos a quem, no ano passado, pedi que desenhassem a família como eles a entendiam. Surgiram de imediato várias perguntas de vários lados: a minha mãe morreu, como faço? o meu pai morreu, como faço? eu vivo com o meu tio, como faço? o meu avô já não existe, ainda o posso desenhar?
Estas perguntas são fáceis de responder: desenhem como a entendam, como ela é para vós, como faz sentido. Esqueci-me, porém, do poder da língua, das palavras, dos termos. Esqueci-me que a língua é um sistema de diferenças. O termo família não existe num vácuo. Família implica os termos pai, mãe e filho. E o termo pai existe em relação ao termo mãe. E o termo filho não existe sem os termos pai e mãe. Os termos não existem sozinhos. Aí reside o poder da língua, em moldar-nos o mundo duma forma que não é necessariamente a que conhecemos e que leva a que, sendo diferentes daquilo que a língua representa, nos sentimos sempre como uma não-parte dos significados. Se eu não tenho pai, falta-me algo. Se eu não tenho mãe, falta-me algo. Sou diferente, não tenho uma família normal.
É o poder da língua a tiranizar a nossa vida todos os dias.
Assisti há pouco ao Prós e Contras de ontem. Ouvi dezenas de vezes os termos casamento, família, adopção, criança, pai e mãe, e apercebi-me de como a tirania da língua é aproveitada pelos seres humanos, que atribuem livremente a cada um daqueles termos um determinado conjunto de significados, conforme o mundo lhes tenha sido apresentado e conforme o queiram moldar. Felizmente apercebi-me de que, sabendo da tirania da língua, sinto estar do lado que menos tiraniza com ela, que menos a usa para manter sistemas artificiais de diferenças, sustentados por anos e anos de discursos, de textos, de nada mais que isso.
Senti, sobretudo, uma sensação incrível de que tenho o dever de, como especialista já de alguma forma na área, contribuir naquilo que possa para uma transformação da língua como meio que justifica tiranias num meio de entendimento e de aproximação de pessoas, mais do que como questionamento, divisão, segregação e atribuição de significados ao mundo, à sociedade, aos comportamentos e às crenças, que não servem a felicidade humana.
Nenhum dos meus alunos de 7 e 8 anos deveria sentir que a sua família é incompleta. Deveriam saber que cada um tem a sua, e que, como cada vida, cada família acontece de forma diferente. E que com pai, mãe, tio, tia, avô e avó, com todos ou só com alguns, sem uns mas com outros, desde que recebam afectos, têm uma família, e que são esses afectos que a fazem existir, independentemente dos termos que a língua utiliza para a descrever.
16.11.09
15.11.09
Anotações sobre a viagem a Eisenach
Wartburg (fundado em 1067 - património mundial da UNESCO)
Hoje estive em Eisenach, cidade natal de Bach, na região da Turíngia, e visitei o Castelo de Wartburg, onde Lutero (1483-1546) traduziu a Bíblia para alemão, definindo aquilo que viria a ser até hoje o alemão standard. Neste castelo, porém, tinha-se casado uns séculos antes, Santa Isabel da Hungria (1207-1231), que teve uma vida curta e peculiar (casou-se, se é que assim se pode dizer, com 4 anos, com Luís da Turíngia, de 11 anos). Interessante é que Santa Isabel da Hungria era tia-avó da nossa Santa Isabel (1271-1336), esposa de D.Dinis. O que têm elas em comum? A história do milagre das rosas. Ouvi hoje exactamente a mesma história que nos contaram desde sempre. A nossa Isabel foi esperta, se de facto se lembrou da história da tia-avó para ser reconhecida como milagreira. Ou então, pela coincidência dos nomes, a história tratou de confundir as duas e serem hoje as duas Rainhas Santa Isabel, uma portuguesa, outra húngara, reconhecidas por terem oferecido a vida aos pobres e levado um dia pão no regaço, que se transformou em rosas aquando do interrogatório do(s) marido(s).
Mais dados interessantes de Wartburg: o ridículo que é ser-se turista, já desde há uns anitos. Após traduzir a Bíblia, diz-se que Lutero atirou o pote de tinta que utilizou contra a parede e que a mancha de tinta ficou para sempre lá marcada. No século XIX era frequente que os visitantes do castelo levassem um pedaço da parede onde estava a tinta, pelo que os responsáveis do castelo tratavam de reconstruir a parede e a mancha para manter o sucesso turístico da coisa.
É sempre bom recordar que, por ter afixado em Wittenberg as 95 Teses contra as indulgências ,perdões de pecados que constituiam a maior fonte de rendimentos da Igreja Católica, Lutero teve que esconder-se neste castelo, sob outro nome, porque qualquer um estava autorizado pelo Papa a matá-lo, pelo bom nome daquela Igreja. É curioso como a história nos leva sempre ao encontro das virtuosidades do catolicismo.
Mais dados interessantes de Wartburg: o ridículo que é ser-se turista, já desde há uns anitos. Após traduzir a Bíblia, diz-se que Lutero atirou o pote de tinta que utilizou contra a parede e que a mancha de tinta ficou para sempre lá marcada. No século XIX era frequente que os visitantes do castelo levassem um pedaço da parede onde estava a tinta, pelo que os responsáveis do castelo tratavam de reconstruir a parede e a mancha para manter o sucesso turístico da coisa.
É sempre bom recordar que, por ter afixado em Wittenberg as 95 Teses contra as indulgências ,perdões de pecados que constituiam a maior fonte de rendimentos da Igreja Católica, Lutero teve que esconder-se neste castelo, sob outro nome, porque qualquer um estava autorizado pelo Papa a matá-lo, pelo bom nome daquela Igreja. É curioso como a história nos leva sempre ao encontro das virtuosidades do catolicismo.
12.11.09
Não percebo por que se chama a este tipo de pessoal "conservador" se são eles quem tem as ideias mais porcas sempre a pairar-lhes sobre a cabeça
10.11.09
Amourissima
Estás envolvido num conjunto de emoções pela música que estás a ouvir. Pões a tocar exactamente aquela música que sabes que se adequa ao teu estado de espírito do momento. É a música que o determina ou ele a ela? Apetece-te chorar, pensar em quão triste a tua vida pode ser e é (está?) neste momento. Sentes-te ligeiramente emocional, com vontade de receber um abraço, pensas no efeito que o álcool já teve em ti e que provocou estes pensamentos.
Até que se te caem os auscultadores, desaparece a música e reparas em tudo o que a tua cabeça é capaz de construir, se estiveres para ali virado.
Até que se te caem os auscultadores, desaparece a música e reparas em tudo o que a tua cabeça é capaz de construir, se estiveres para ali virado.
9.11.09
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